por Marcela Capobianco
Alunos de Ensino Médio costumam sentir arrepios ao ouvir o nome de Machado de Assis. É só o professor de literatura começar a falar um pouco sobre o Mago do Cosme Velho, que os pobres alunos já se veem penando para ler um livro chato, antiquado, grande e cheio de palavras difíceis. Parece que foi pensando nestes estudantes que a Incrível Companhia de Artes e Entretenimentos do Senhor Cosme decidiu levar ao palco a história de “O Alienista”, escrita por Machado de Assis no fim do século XIX. Escolha feliz para a jovem companhia que, com sua peça de estreia, foi campeã do VII Festival de Teatro Cidade do Rio de Janeiro, em 2009.
Com uma linguagem simples e veloz, que mistura, durante todo o tempo, ação e narrativa, o diretor Eduardo Vaccari foi ousado em não determinar que cada personagem fosse interpretado por um só ator. Durante os 80 minutos de espetáculo, os dez atores mal saem do palco e se revezam como narradores, personagens e espectadores do trabalho que desenvolvem. A distinção entre os personagens principais é feita por alguma peça de figurino que represente tal personagem, como a casaca verde do médico, a saia de Dona Evarista, o colete de seu fiel escudeiro, o boticário Crispim. Simão Bacamarte, o respeitado psiquiatra que decide fundar um hospício na Itaguaí da época do Império, é interpretado por três atores diferentes, que, reunidos no final, tornam visível a esquizofrenia do protagonista. O principal opositor de Simão Bacamarte, o barbeiro Porfírio, que reúne uma multidão de revoltosos para demolir a Casa Verde e o consequente poder de seu criador, é interpretado pelos mesmos atores que representam o alienista, reforçando a ideia de que o poder é uma instituição, não importando quem o tem nas mãos.
Em sintonia e completamente ligados à história que contam, são os próprios atores que executam as partes musicais da peça, cantando e manuseando diversos instrumentos. Na revolução popular contra a Casa Verde, são fantoches que triplicam o tamanho do palco e nos remetem a um clima de brincadeira infantil.
Ao final do espetáculo, tanto alunos de Ensino Médio quanto aqueles que já deixaram a escola há bastante tempo percebem que Machado de Assis pode não ser doloroso, e sim divertido e atual.